domingo, julho 17, 2011

AMYR KLINK E A NAVEGAÇÃO INTERIOR

Amigos, conforme anunciado, eis a entrevista com Amyr Klink.

A ideia de postar um artigo de Amyr no Blog da hidrovia surgiu do contato com Lars Grael. Quando ele escreveu aqui, contou sobre uma viagem pelo rio Tietê-Paraná. Uma versão moderna das expedições dos Bandeirantes. Destacou que Amyr Klink também integrara o grupo. E, naquela oportunidade, o famoso navegador fez apresentações em diversas comunidades locais, nos municípios ao longo dessa fantástica hidrovia.
Travessia do Atlantico num barco a remo.
Conheci Amyr no início dos anos 90, quando esteve na Riocell S.A., no RS. Fez uma palestra sobre a primeira de suas navegações oceânicas. Cem dias entre céu e mar foi o título que deu ao livro que relata a façanha da primeira travessia do Atlântico Sul, num barco a remo, em 1984. Essa empresa de celulose e papel, onde trabalhei, implantava, na época, programas de qualidade e planos estratégicos. Por isso, convidou esse extraordinário empreendedor para contar suas experiências, projetos e desafios. Foi uma exposição brilhante. Depois vieram os projetos de circunavegação, Antártida, Ártico e invernagem.
 
Lars abriu a porta e a proposta de  artigo do Amyr virou uma entrevista. Achei sensacional. Enviei-lhe um roteiro com alguns temas-perguntas e no dia 12 de julho, conversamos, pelo telefone, por mais de uma hora. O informe prévio da entrevista no Blog gerou expectativas. Recebi manifestações diversas. De um lado, pessoas que já leram todos seus livros, fizeram elogios à iniciativa. Por outro, tive que explicar a alguns de quem se tratava e os seus feitos.

Foto Amyr - Fonte Site Amyr Klink
Agora, Amyr expõe o seu ponto de vista sobre a navegação interior no Brasil. Gostei muito deste bate-papo. A transcrição da conversa ficou extensa. Então, para atender os diferentes perfis de leitores apresento, neste post, uma versão compacta, com suas principais idéias e visões. No entanto, para os que desejarem conhecer o trabalho completo, basta acessar o link Entrevista com Amyr no Blog da Hidrovia.

Como ninguém é de ferro, entro em férias por alguns dias e volto no início de agosto, com o Blog “a todo vapor”. Espero que gostem da entrevista!

Allama-BH:  Quem é Amyr Klink?
Amyr: “Prefiro não falar de mim e vamos às perguntas. Já li muito sobre o tema da navegação e do transporte aquaviário; ...li obras em inglês, francês. Tenho paixão pela navegação. Já projetei e construí barcos, inclusive para a navegação interior”.

Allama-BH:  Como você vê o potencial hidroviário do Brasil?
Amyr: “O transporte aquaviário é muito importante para o Brasil. Temos um país quase insular. Se você analisar as bacias hidrográficas e o litoral brasileiro verá condições ótimas para se alcançar um nível de excelência neste segmento. Infelizmente, é um absurdo a ignorância crônica do Brasil; ... muitos rios estão castrados por pontes baixas, ausência de eclusas e outros problemas dificultam a navegação; ....Nosso país é um exemplo interessante de como não se fazer as coisas; ...tudo bem que estamos errando menos tempo que a Europa, mas no caso da navegação interior temos erros de difícil correção em pouco tempo ou que exigem recursos brutais.”

Allama-BH: Quais as hidrovias brasileiras que você já navegou?
Amyr: “Já naveguei em vários rios brasileiros, na bacia do São Francisco, na bacia do Amazonas, em seus diversos rios, na hidrovia do Tietê Paraná, junto com o Lars...”

Allama-BH: Na hidrovia do Tietê-Paraná, o que mais lhe chamou a atenção?
Amyr: “A Hidrovia do Tietê-Paraná tem problemas, mas é uma referência. São cerca de 1800 km de vias navegáveis, que considero quase que uma exceção. A questão é que existe um descaso, não econômico, mas cultural com relação ao uso da hidrovia; ....todavia, algumas usinas já alteraram o transporte da colheita de cana de açúcar, mudaram a forma de operação, passando a adotar barcaças. Quer dizer, com um mesmo motor Scania ela empurra várias dezenas de caminhões...”

 Allama-BH: Em seus projetos, você tem abordado a importância do aproveitamento da criatividade e talento das pessoas. Como esses dois aspectos podem ser trabalhados no desenvolvimento das hidrovias brasileiras?
Amyr: “No caso das hidrovias brasileiras acho que será preciso toda a criatividade do mundo, pois o problema é muito sério. Além de criatividade, precisamos de um pouco mais de critério. É preciso mudar a cultura de funcionamento de ministérios, de ministros, de servidores públicos da área executiva e legislativa, onde há uma ignorância brutal sobre a importância da hidrovia. Quando vai se montar uma marina, você enfrenta tantos problemas burocráticos e de licenciamento ambiental que parece uma atividade criminosa. E quando vai explicar que essa é uma atividade multiplicadora de renda, de emprego e riqueza, parece um discurso maluco que ninguém compreende...”

Allama-BH: Seus projetos são fortes em patrocínio. Na palestra feita na Riocell S.A. você disse que a Aços Villares condicionou o patrocínio à mudança do casco do barco para aço. Mas você manteve a ideia original do alumínio. Como mobilizar patrocínio para a Navegação Interior?
Amyr: “Se tenho convicções autênticas e fundamentadas em relação ao que fazer e ao que quero fazer, vou em frente. Quando você consegue transmitir de modo autêntico, você não precisa adular;..... Na esfera pública talvez seja mais difícil convencer. Pode ser que não entendam na primeira vez, na segunda, mas uma hora vão de entender. É preciso persistência, clareza de objetivos e capacidade de explicar o impacto do conjunto das intervenções. ....Quem é o responsável é o ministro dos transportes... é ele o assassino doloso. Se foi construída uma via federal, que eliminou estradas locais, deveria ter sido feita uma nova via para pedestres, ciclistas, ou seja, uma via baixa velocidade...para evitar mortes".

Allama-BH: Você enfatiza muito a questão de buscar sempre soluções inovadoras e confiáveis. E perseguiu muito isso em seus projetos. Como tratar isso nas hidrovias da navegação interior no Brasil?
Amyr: “Na questão da inovação entendo que não vai dar para usar recursos e meios convencionais, pois muito dos erros já foram cometidos.... Então, as áreas importantes de se falar é a burocrática e a de licenciamento. Será preciso capacidade de encontrar soluções não apenas técnicas, mas burocráticas....”

Allama-BH: O Brasil despencou do segundo lugar no ranking mundial da indústria naval, no final do século XX, e o setor aquaviário ficou estagnado. Atualmente, a situação começa a ser revertida. Como você avalia a indústria naval brasileira?
Amyr: “Vivemos um superaquecimento do setor naval motivado pela indústria de óleo e gás. Temos uma capacidade técnica muito boa nessa área, competindo em igualdade com nações avançadas, apesar dos custos tributários, trabalhistas e estruturais. Mas também temos problemas para atender internamente as demandas. São problemas positivos. Espero que isso se reflita para outros setores...”.

Allama-BH: O que você sugere para que os projetos da navegação interior no Brasil encantem a sociedade?
Amyr: “Encantamento exige preparação. No caso do transporte aquaviário não é difícil. É importante envolver governos estaduais, deputados, Senadores, Vereadores, prefeitos nesse esforço de encantar a sociedade. Além de encantar, precisamos convencer. Apresentar indicadores de eficiência, impactos positivos, viabilidade tecnológica, custos..”.

Allama-BH: Qual sua opinião sobre os eventos da Copa e Olimpíadas no Brasil?
Amyr: Sou totalmente contrário a eventos dessa magnitude no Brasil, mas penso que estes dois serão importantes para ficarmos, no mínimo, ruborizados. Capacidade e talento nós temos. Não é o lado técnico. Envolve uma série de questões tais como estrutura política, tempo de licenciamento, hábitos culturais, superfaturamento, valores morais, etc...por isso ainda não estamos preparados.”

Allama-BH: Quais foram os maiores erros e acertos de seus projetos?
Amyr: O barco Parati II é um projeto tecnicamente perfeito. Fizemos uma réplica e errei ao apostar numa forma diferente de propulsão auxiliar à vela. Um conjunto de velas tem uma durabilidade muito pequena e o custo de reposição é maior que o uso de hidrocarbonetos. É triste falar isso para quem gosta de vela, mas é muito mais barato fazer a volta ao mundo queimando óleo diesel em motor convencional do que com velas.

Allama-BH: Quais as sugestões que você daria para ampliar a visibilidade do Blog da Hidrovia no seu objetivo de promover a navegação interior no país?
Amyr: Somos muito criativos. Para promover a navegação interior sugiro levantar dados, apresentar informações sobre hidrovias. O blog poderia trabalhar também nesse sentido. Demonstrar experiências nossas e de outros países com a navegação interior.

Allama-BH: Mensagem final para os leitores do Blog da hidrovia
Amyr: “Muito bacana a idéia do blog e espero que cumpra o papel de fazer pensar estrategistas, governantes e, nós mesmos”.

por JOSE ALLAMA

Para ver a entrevista completa, clique aqui!
Para saber mais sobre AMIR KLINK, clique:  http://www.amyrklink.com.br/




4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Muito interessante a entrevista. A experiência de Amyr, dá excelentes sugestões de novos caminhos ao uso do Blog. Ratifica a necessidade de engajamento de muitos, na discussão da navegação de interiores. Isto poderá viabilizar, o que já parece ser viável pela geografia.

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  3. Muito boa a entrevista, logo com quem domina o assunto.
    Parabéns Jose Allama.

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  4. Jose Santiago
    Muito boa a entrevista, logo com quem domina o assunto.
    Parabéns Jose Allama.

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