sábado, maio 07, 2011

NAVEGAÇÃO INTERIOR NO BRASIL: VOO DE ÁGUIA OU DE GALINHA ?

A vida é repleta de comparações. Seguidamente, o homem pensa e se repensa em relação ao ambiente. Contrasta posições das coisas que o rodeiam e daqueles que o cercam, seja na dimensão do ser, seja na do ter. Nessa inquietude, a vida segue seu curso, como o rio em busca do mar. Assim, evoluem mais aqueles que persistem em seus objetivos e olham para o horizonte, para frente.
Nessa linha, vale ressaltar a metáfora da condição humana A águia e a galinha. É a história surpreendente de uma águia que, desde filhote, foi criada entre galinhas. Todavia, ela jamais esquecera suas origens. Ao despertar, alçou voos cada vez mais altos. Seu autor, James Aggrey, foi um grande educador e político de um pequeno país africano. Ele impressionou seu povo ao citar essa narrativa quando proferia seu discurso libertador, em Gana, no início do século passado. Quase cem anos depois, continua a inspirar teólogos, administradores e outros profissionais a escreverem livros e artigos sobre essa analogia.
Em seu livro, Leonardo Boff reconta o conto. (Ed. Vozes, 1997). A metáfora emprestou título à obra. Nele, Frei Boff discorre sobre o tema e o amplia ao confrontar outras dualidades. Em síntese, aborda duas dimensões fundamentais da existência humana: a do enraizamento, do cotidiano, e do limitado, simbolizado pela galinha e a dimensão da abertura, do dinâmico, e do ilimitado, representado pela águia. Conclui que cada um precisa escutar sua natureza e que o importante é o equilíbrio. Entretanto, enfatiza situações nas quais o indivíduo deve libertar a águia que habita o seu interior.
Essa figura metafórica tem sido usada no campo da administração, em avaliações de desempenhos e ações motivacionais por melhores resultados. Nesse sentido, aplica-se também ao segmento da navegação interior. Seja na análise do plano interno, no comparativo entre modais de transportes e em outros aspectos, seja no plano externo, na comparação com modelos internacionais. Do resultado emerge uma crise de identidade semelhante. Surge então a pergunta que não quer calar: Como se está, o que se deseja, e o que está se fazendo para o Brasil avançar nesta área está para galinha ou águia?
Este artigo, inspirado na provocação dos autores acima, explora diferentes dimensões do setor aquaviário e seus impactos na hidrovia, a partir do exame crítico de alguns vetores em efervescência no atual contexto do país.
Na questão da infraestrutura, são voos de galinha o índice inferior a 4% de participação da navegação interior na matriz nacional de movimentação de cargas e o nível de integração dos modais de transportes no país, agravado pelas restrições de estruturas e espaços destinados às embarcações fluviais nas instalações portuárias brasileiras. Por outro lado, são voos de águia as hidrovias dos EUA, Holanda e Bélgica, quando se verifica a estrutura disponível, a tecnologia empregada, o volume de cargas, a quantidade de eclusas e canais e o nível de articulação empresarial desse setor. Um bom exemplo é o complexo hidroviário do Mississipi, nos Estados Unid os, por onde navegam cerca de 650 milhões de toneladas de carga ao ano, em especial, produtos agrícolas. Esse número representa quase 80% do total movimentado nos portos do Brasil em 2010, cujo recorde foi de 833 milhões de toneladas (Fonte ANTAQ).
No aspecto das políticas públicas, são voos de galinha os conflitos do setor elétrico e rodoviário com o de navegação. Entre eles, a supremacia dos empreendimentos hidrelétricos na utilização dos recursos hídricos e o rodoviarismo exacerbado no desenvolvimento da infraestrutura nacional. O primeiro conflito tem prejudicado a implantação de hidrovias. A segunda disputa alimenta uma matriz de transporte irracional e ineficiente. De outro modo, são voos de águia os exemplos verde-amarelos de aplicação do princípio do uso múltiplo das águas, tais como a Hidrovia do Sul e a do Tietê, em São Paulo, com suas diversas eclusas e passagens para peixes, e mais recentemente, a inauguração de dispositivos de transposição do desnível da barragem de Tucuruí, no Rio Tocantins, por meio dos quais se devolveu à sociedade uma importante rota fluvial da região.
Nas ações de modernização pode-se dizer que é voo de galinha o nível de integração de diversos órgãos e entidades da administração pública na liberação de carga ou embarcação num porto ou zona de fronteira. Por outro ângulo, é voo de águia o projeto Porto Sem Papel, já em funcionamento em alguns dos principais portos nacionais. A iniciativa integra os intervenientes no comércio e no transporte de mercadorias, a partir duma janela única de um sistema que desburocratiza os procedimentos de exportação, importação, cabotagem e de exigências regulatórias. Apresenta um portal de informações, estruturado num banco de dados exclusivo, que agiliza a operação e gerenciamentos desses processos (Fonte SEP).
No plano de investimentos, é voo de galinha o valor de R$ 2,7 bilhões previsto para o setor hidroviário nos próximos anos (2011-14), se comparado aos R$ 90 bi estimados para rodovias e ferrovias, no mesmo período (Fonte PAC 2). Reconhece-se que esses recursos constituem aumentos significativos nos valores aplicados até então, porém, tais cifram não atendem nem a demanda atual por melhoria da infraestrutura, quanto mais com o crescimento previsto para os próximos anos. De outra parte, é voo de águia a retomada da valorização de nossa indústria naval. Em 2010, foram aprovados pelo Fundo da Marinha Mercante – FMM mais de 160 projetos envolvendo a construção e expansão de estaleiros, embarcações e outros negócios do setor, para os quais se estimam contratações na ordem de R$ 12 bi, no referido quadriênio. Somados aos valores já investidos nos últimos 8 anos, chega-se a cifra de R$ 30 bi.
Em que pesem tais reflexões, não importa quantos papéis de galinha se tenha experimentado, é vital que o Brasil se assuma como águia, do modo como tem avançado em alguns setores. É urgente que as ações públicas e privadas criem condições para um voo majestoso em substituição às truncadas tentativas rasantes. Se o país pretende reequilibrar sua matriz de transporte, com o deslocamento para o setor aquaviário de quase um terço da movimentação das cargas nacionais, no horizonte mais próximo possível, deve adotar, em seus planos e ações, o modelo mental da águia, seja como indivíduo, organização ou nação.
                                                                                                                                               José Ademir Menezes Allama

7 comentários:

  1. Somente para teste

    ResponderExcluir
  2. Parabéns pelo teu trabalho e perseverança, te admiro muito! Helena Lemos

    ResponderExcluir
  3. Meu Amigo,
    Que o projeto do transporte de passageiros via fluvial entre Guaíba e POA, alce vôos de Águia.
    Parabéns

    ResponderExcluir
  4. Parabéns pelo excelente artigo... Este setor tão pouco aproveitado no Brasil realmente necessita de projetos e idéias inovadoras e arrojadas! Ione Allama

    ResponderExcluir
  5. Mesmo que ainda não seja um vôo de águia, a vontade Política pode torná-la. País que pretende e precisa embarcar como Desenvolvido, deve visualizar a relação custo/benefício do transporte Hidroviário. Ao olharmos o fluxo de nossas rodovias, percebemos que estão “ Engarrafadas” para o progresso. O Transporte Nacional urge solução! Precisamos de um vôo já!
    Paulo Allama

    ResponderExcluir
  6. Após poucos anos vemos que o transporte de passageiros via fluvial entre Guaíba e POA obteve sucesso, que deveria ser replicado Brasil afora.

    ResponderExcluir